"Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara" - Taiguara (EMI/Odeon, 1976) - Ricardo Schott

Muita gente lembra de Taiguara, mas ele permaneceu desaparecido das paradas por um bom tempo, mesmo tendo vendido muitos discos durante os anos 60. Morreu de câncer em 1996, meio sumido - ainda que estivesse trabalhando, já que seu último álbum, Brasil Afri, saíra apenas dois anos antes. Para quem nunca conheceu ou não se lembra, Taiguara Chalar da Silva, uruguaio radicado no Rio de Janeiro, filho de músicos, foi um dos raros espécimes da música brasileira a apostar num tipo de easy listening nativo, quando o gênero vendia a rodo lá fora - graças às orquestrações de Burt Bacharach, às trilhas de filmes e até a pop stars como Elton John.

Surgido na mesma leva de artistas de festivais que gerou Gil e Caetano, Taiguara logo chamou a atenção com seu vocal empostado e com suas músicas que ora tendiam para o romantismo (na balada de motel "Universo no teu corpo", que muita gente até hoje acha que é de Roberto Carlos, quando toca nos flash-backs da madrugada) ora para o inconformismo político e o hippismo puro e simples ("Geração 70", "Que as crianças cantem livres", etc). "Helena Helena, Helena", um dos maiores sucessos de Taiguara (composto pelo engenheiro químico e compositor bissexto Alberto Land, morto há dois anos num assalto no Rio de Janeiro), tinha um teor existencialista fortíssimo para a época, fim dos anos 60, por tocar na ferida da liberação feminina e do amor livre. O resultado da ousadia pôde ser medido quando, anos depois, uma pesquisa nos arquivos do DOPS revelou que a maioria das canções censuradas entre as décadas de 60 e 70 nem eram de Chico Buarque, mas de Taiguara. Num determinado momento o próprio Taiguara, sem conseguir ultrapassar a barreira da censura, achou por bem se auto-exilar. Foi parar em Londres e depois rodou vários países, ficando três anos sem lançar nada.

Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara surgiu após esse sumiço - e significaria o início de mais um desaparecimento, desta vez bem maior. O disco era um relato das mais recentes experiências do cantor - que havia buscado suas raízes ao relacionar-se com tribos indígenas e se aprofundara nos estudos de música. O disco ia além da sonoridade pop dos primeiros álbuns, ao incluir efeitos de gravação, camadas de experimentalismo, progressivices e toques de música latino-americana. A produção foi caprichada - o time que foi para o estúdio em Imyra, Tayra... incluía cerca de 80 músicos, que iam desde Wagner Tiso (que produziu e tocou no LP) até Hermeto Paschoal, que fez alguns arranjos e contribuiu para o clima experimental do álbum (uma seqüência de fotos na capa interna mostra Hermeto fazendo gravações para o álbum... envolto numa enorme folha de papel). O disco não passou despercebido pela censura - calejado pelos velhos problemas, Taiguara registrou 11 das 14 músicas usando seu sobrenome, Chalar da Silva. Tidas e havidas como sendo mais "problemáticas", as faixas "Situação", "Terra das palmeiras" e "Público" tiveram que ser assinadas pela então esposa do cantor, Gheisa. As duas primeiras nem tiveram suas letras impressas no encarte, que afirma que as três faixas tiveram problemas de "edição".

Imyra, Tayra... abria com seu lado mais experimental, que incluía peças instrumentais ("Pianice"), mergulhos no mellotron ("Luanda, violeta africana") e latinidades ("Como em Guernica", cantada em espanhol, e o progressivismo latino de 'A volta do pássaro Ameríndio", com Taiguara pilotando um mini-moog), alem de experimentalismos em gravações de vocais, passagens instrumentais e manipulações de tapes - em "Terra das Palmeiras" e na vinheta "Delírio transatlântico e chegada no Rio", mini-psicodelia concebida no órgão por Taiguara, que ainda inseriu ruídos de rádio e tapes de um jogo no Maracanâ. As sete primeiras músicas, interligadas, soavam como uma faixa só. No encarte, o cantor buscava passar a mensagem como podia, ao explicar o conceito do disco ("primeiro as lições de música - pianice, depois as do povo colonizador - the island... depois a tempestade-realidade brasileira") e ao colocar vários textos sobre a vida comunitária indígena, que, somados às letras de várias faixas, davam ao disco um caráter de manifesto libertário.

O lado B, repleto de sambas, ainda incluía um pouco do lado popular que tornou famosas músicas como "Maria do futuro" e "Universo no teu corpo", mas imerso em arranjos ousados - divididos entre o próprio Taiguara e Hermeto Paschoal. Abria com o samba viajeiro de "Aquarela de um país na lua" (com o riff básico de "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso) e a bossa-nova política de "Situação", recado explícito para o gorilato reinante, fechado com experimentações rítmicas e alterações na velocidade, típicas da obra de Hermeto. Seguia com o tom jobiniano de "Sete cenas de Imyra", o samba montanhês de "Três Pontas" (Milton Nascimento), a desconstrução rítmica do "Samba das cinco" e a marchinha "Primeira bateria", com o pai de Taiguara, Ubirajara Silva, no bandoneon - espécie de gaita usada na música latina. No final, o piano-e-voz de "Outra cena" retomava a melodia de "Sete cenas de Imyra". A letra, que não aparecia no encarte, concluía o espírito do disco e da época: "o país, amargo, com medo, da matriz/só não sofreu quem não viu/não entendeu quem não quis".

A qualidade de Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara nunca seria compreendida ou retribuída. O disco foi massacrado pela crítica e considerado um rascunho por vários jornalistas. Seu teor político acabou colocando-o na clandestinidade - a Odeon jamais faria uma reedição do álbum. "Aquarela de um país na lua" e "Situação" reapareceriam em CD na coletãnea Meus momentos dedicada ao cantor e só. Taiguara seguiria com uma carreira mais voltada para guarânias e músicas sertanejas, além de vasculhar o baú da ligação Brasil-África em seu último álbum, o já citado Brasil Afri. E mais uma vez os japoneses passam a perna nos brasileiros no que diz respeito à redescoberta de nossas melhores obras, já que a EMI-Toshiba, interessadíssima nos empoeirados catálogos de nossas multinacionais, relançou o álbum em CD faz algum tempo - incluindo livreto com todas as fotos.

Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara. LP de 1976 de Taiguara, produzido por Wagner Tiso (diretor de produção: Renato Corrêa). Participação de músicos como Hermeto Paschoal (arranjos, flauta, flauta-baixo), Nivaldo Ornellas (sax), Toninho Horta (violão, guitarra), Novelli (baixo), Jacques Morelembaum (cello), Ubirajara Silva (bandoneon). O próprio Taiguara fez arranjos, regeu e tocou sintetizador, piano e mellotron. Track list: "Pianice", "Delírio transatlântico e chegada no Rio", "Público", "Terra das palmeiras", "Como em Guernica", "A volta do pássaro Ameríndio", "Luanda, violeta africana", "Aquarela de um país na lua", "Situação", "Sete cenas de Imyra", "Três pontas", "Samba das cinco", "Primeira bateria", "Outra cena".

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